Foi um texto meio confuso esse anterior e não sei até agora se eu disse uma verdade que era só minha ou de muitas pessoas.
Despedi do John e vim com o texto crescendo na cabeça, buscando idéias lá e cá. Nunca sei realmente que rumo um texto vai levar quando o começo. Se tento limita-lo a um rumo pré-definido ele naturalmente morre sufocado e não vinga.
Falo isso porque, por exemplo, enquanto vinha pra casa havia decidido acrescentar aos comentários uma idéia que já tinha desenvolvido antes que também envolvia: tempo, o modo como nossa percepção do mundo muda desde a infância e um outro dito popular.
Comecei a escrever o texto e ele tomou um caminho diferente, onde não cabiam mais outras idéias. Faço este comentário porque fiquei com vontade de trabalha-la aqui.
Como eu disse, envolve tempo, mudança de percepção e uma frase comum. É a de que cada vez os tempos passam mais rápido.
Sempre foi um paradoxo de minhas idéias desde que posso me lembrar. Porque é ilógico, absurdo, impossível, que o fluxo do tempo esteja acelerando. Não há uma lei física contra isto (eu acho), mas mesmo assim sempre me recusei a aceitar tal idéia literalmente. Se o tempo estivesse em aceleração, ele com certeza uma hora iria descarilhar. E, no entanto, desde aqueles momentos de infância, era inegável: a cada ano os anos parecem passar mais rápido. Mesmo hoje isso é inegável: comparado a outros tempos, estes últimos cinco anos se passaram num segundo. Parece que foi ontem que cheguei aqui em BH e apesar de muita coisa ter acontecido desde então, é difícil me convencer de que foi tanto tempo.
E não é uma coisa que só eu penso. Como escrevi, é consenso geral, algo que todos falam. Já li até livros e quadrinhos satirizando isso, criando explicações mirabolantes para o tempo realmente estar se acelerando.
Entretanto sei que não é verdade. Daí qual é a explicação possível pra isso? Já li também explicações em fontes mais sérias. De que a era da comunicação, a correria das cidades, o excesso de informações que recebemos que causam esta ilusão de que o tempo está acelerando. Interessante, mas nunca me convenceu.
A sensação de o tempo acelerar é um comentário que já vi, através da mídia e da internet, ser feito por pessoas de todo o mundo e, através do boca a boca, pelas pessoas mais diferentes. Pensei comigo mesmo que estas muitas pessoas diferentes levam vidas diferentes demais para sentirem o mesmo exato efeito. Existem pessoas, por exemplo que sempre viveram em constante correria, existem outras que já tiveram vidas mais atarefadas e depois desaceleraram o ritmo e algumas destas já me fizeram o mesmo comentário. Além disso, se fosse o excesso de informação que causasse a ilusão de o tempo acelerar, implicaria que você eventualmente teria de se tornar uma máquina de absorver dados para manter esta sensação. E conheço pessoas, por exemplo que estudavam e depois passaram um ano parados e mantiveram o comentário. Talvez um contra-argumento fraco este, mas não importa, o fato é que esta hipótese sobre a era da informação sempre me pareceu fraca.
Veio-me outro dia uma idéia que é para mim, agora, uma hipótese melhor do que qualquer outra que jamais ouvi.
Estava pensando justamente em como nossa mente deteriora com o tempo. É fato – leia onde quiser se duvidar – a eficiência de nosso cérebro deteriora com o tempo e ele é muito mais potente em nossa primeira infância do que em todo o resto de nossa vida. Isso é um ponto. O outro talvez tenha a ver com um argumento sobre experiência mediata e imediata que estudamos no começo do curso de psicologia. O de que quando vemos algo, quando vivenciamos um fato, nós sempre estamos processando ele comparando com outros fatos que já passamos. Nós interpretamos o que vemos.
O argumento da experiência imediata é que se vivenciássemos alguma coisa pela primeira vez, sem nenhuma base de comparação anterior – como acontece com recém nascidos, por exemplo – nós absorveríamos a percepção em si, sem interpretações ou comparações com experiencias passadas.
Realmente, sem base para interpretar o que vemos, teríamos que gravar e absorver cada mínima percepção na experiência. Mas a medida que novas experiências do mesmo tipo vão passando, aprendemos como interpreta-las. Em qualquer trabalho de processamento de dados isso é fácil de perceber. Existem dados que são os importantes, eles definem os resultados da pesquisa e existem outros que são sempre repetidos e você passa a ignorar e mesmo dados que variam, mas sem alterar os resultados finais.
Também em nossas vivências isso é comum. Quando iniciamos uma nova rotina, por exemplo se saímos da escola para faculdade. A faculdade possui uma infinidade de espaços e pessoas diferentes das quais convivíamos antes, também possui protocolos, diretórios e regras que não seguíamos antes. Um calouro leva sempre algum tempo para se acostumar as normas e problemas da faculdade, além de conhecer seus colegas e de tipificar as pessoas que povoam esse ambiente. O primeiro semestre sempre é muito intenso, mas eventualmente nos acostumamos com essas coisas até que viram rotina, seguimos as regras e enfrentamos os problemas comuns do dia a dia quase de olhos fechados.
É assim com tudo. Mesmo em filmes, recordo, as cenas sempre me parecem passar mais rápido depois da primeira vez que os vi. À medida que vamos vivendo, vamos tipificando o mundo, aprendemos exatamente o que procurar para completar uma tarefa ou entender um fato que se repete muito, sem perder tempo compreendendo cada um dos seus elementos como fizemos na primeira vez. Quanto mais fazemos as mesmas coisas menos temos o que observar nelas.
O resultado é que nossas primeiras lembranças da vida são riquíssimas, cheias de fatos e elementos que nunca havíamos experimentado antes e por isso mesmo tivemos que grava-los todos. E a medida que crescemos vamos criando memórias mais compactas, cheias de lacunas que completamos naturalmente com aqueles elementos comuns que sempre estão no mesmo lugar. Numa comparação meio tosca, se nossa memória fosse como um HD de computador, as memórias relativas aos primeiros cinco anos de nossa vida gastariam tanto espaço quanto os oito seguintes, esses oito gastariam o mesmo que os quinze consecutivos e daí exponencialmente. Até porque, como já disse no início, à medida que crescemos, menos eficientemente gravamos as coisas. Então mesmo que mudássemos nossas experiências radicalmente de tempos em tempos, essa sensação de os anos passarem mais rápido continuaria, ainda que mais fraca.
Hum... foi outro texto maior que o anterior. Eu estou com sono então me perdoem se não tiverem entendido alguma coisa. Mas minha opinião é mesmo esta, os anos parecem passar mais rápido porque cada vez menos prestamos atenção ao que nos ocorre. Apenas supomos que as coisas vão se repetir sempre.
Agora vou dormir, um abraço!